quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Balões.

Os dois eram o desencontro, que as vezes se encontra disfarçado de acaso e descaso.
-Saco.
Ele pedia para o destino colocá-la no caminho dele uma outra hora.
- Bêbados em alguma rua da Europa.
Ele sempre acordou de manhã com medo dessas expectativas  que as pessoas tem de si. Acordar com o mundo nas costas pesa.
Ela acordou hoje, dia de envelhecer, todos os dias são. Olhou na janela, deixou aberta para entrar a luz e trocou todos os móveis do quarto dele de lugar, mudando a vida.
- Eu nem sei muito o que te dizer. Eu pertenço a outro colo, outro carinho.
A história deles era tão complicada que até parecia amor. Sem explosão. E sem amar, só aquilo de querer sem muito saber o motivo.
-Tire esses olhos das minhas esquinas!
No mais, minha gente, "essa cidade não tem mar" e eu não sei escrever.
- Um dos prazeres poucos divulgados é esse de ver um rosto muito perto.

sábado, 5 de novembro de 2011

É preciso acreditar no amor, amando

Essa noite me apertei um pouco na minha cama, imaginando que estava dividindo um pedaço do que é meu com você, como a gente faz. A gente se faz. Eu acordei e senti que faltava algo pela manhã, talvez  um livro novo para ler ou aquele seu beijo de bom dia com os olhos cheios de sono.
E você pode até achar  exagerado como eu quero estar sempre perto, mesmo estando longe.
E você pode até achar engraçado  essa vontade que eu tenho de tornar tudo a minha volta lírico, bonito, mesmo que seja preciso transformar em dor. Te colocar como a minha idealização, paixão. E eu sou mesmo de colorir meu mundo, de desenhar meu mundo impossível.
Você é meu impossível brincando de ser possível. Meu pedaço de cama que sobra(impossível) e as vezes se preenche(possível).
A respiração que as vezes dorme na minha nuca, e os pés quentes que esquentam meus pés gelados.
O som que você sopra muda meu futuro.
Ah que saudades.
Será que você tem alguma ideia do que eu penso quando a gente não está tão perto?
É que é tanto amor, que eu já não me sinto vazia.

Bola branca.

- Viver  e não ter a vergonha de ser feliz, nãnãnããããã...
- Você devia aprender antes de cantar.

- O bolo tá pronto?
- Acho que sim, só o tempo dele esfriar.
- Olhou pra lua hoje?
- Eu sou míope.
- Porra e não enxerga a lua? - sorriu - É cega então.
- Não, é que tô bebada também.
- Tá cheirando.
- Tô cheirando bêbada?
- Não, o bolo.
- Ah sim, é de chocolate.
(silêncio)
- Mas o que tem a lua?
- Quando eu era pequena eu subia no telhado para ficar vendo a lua e planejava modos de chegar até ela. 
- E conseguiu?
- Uma vez. Eu não vejo a lua todos os dias, sabe? Mas sei que ela está lá. Acho que é porque tem muitos prédios na frente.
- Por isso é inevitável ver a lua na beira da praia.
- Deve ser.
- Como você fez pra chegar na lua?
- De escada rolante, sem pressa de chegar, sem ansiedade
(silêncio)
- A subida é longa, mas é tão bonita que não cansa.
- É bonita e é bonita.



domingo, 30 de outubro de 2011

Marcha soldado



"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe,–para dizer alguma cousa,–que era capaz de os pentear, se quisesse."

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Também a dor tem suas hipocrisias

Eu nem sei mais e acredito em tudo que mais quero, pelo menos eu tenho ela pra me beijar. Me guardar em um abraço, acuando meu choro, acariciando meus cabelos, como se quisesse roubar toda minha dor para eu ficar bem.
Eu queria uma vida muito diferente dessa, mas "chega de querer, filha". Uma vez ouvi e vi um pai dizer isso para uma criança que carregava uma boneca e um sorvete derretido nos braços dentro de uma piscina de bolinha. Eu não me lembro muito bem o que ela queria, acho que ela queria era ficar ali babando sorvete nas bolas coloridas. Ou mudar de mundo e ir para o Carrossel. Imagine que legal subir em um cavalo e dar voltas ao mundo. Em ciclos e na próxima volta, depois que rodasse novamente e voltasse a vista do pai já estava grande.
Eu fico pensando se reclamo com bonecas e sorvetes nas mãos ou se minhas mãos estão vazias. Se quando eu completar essa minha próxima volta para enxergar (diferente de ver) meu pai e sorrir eu já esteja mais velha.
Eu ainda acredito em mim.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

30 segundos e todo o tempo do mundo. A ampulheta virada, com aquela areia verde, que nunca vi, contando os dias. Os nossos dias. Final de novela. Acréssimos do segundo tempo. Ultimo set. Mais cinco minutos e eu acordo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Assunto: Aviso de um pedaço que apodreceu.

Oi.
Senti muito a morte da Branquinha. De ouvir ela chegar quieta nos lugares, com um miado leve como quem diz "oi" bem baixinho para não atrapalhar meus pensamentos.
Depois eu fico imaginando que todos os animais que morrem ficam no paraíso dos animais, vivendo livre. Um limbo lindo.
Longe da gente, de gente.
A última noite da Branca ela dormiu entre meus pés. E eu chorei. Estava um pouco frio. E você sabe que eu gosto quando algum corpo esquenta meus pés.
Lembro de uma das últimas vezes que eu chorei pela sua partida e ela veio se encaixar em mim, fazendo carinho com o corpo dela, esfregando as costas na minha perna.Parecia que ela sabia que eu chorava por você. E, engraçado, que ela soltou alguns miados diferentes, mais agudos, como se estivesse chorando também.Eu a abracei e minhas lágrimas molharam seus pêlos. Agora que eu choro de saudades dela, quero seu colo, pode ser?
Ela não saiu do meu lado aquele dia. E nunca vai sair.
Estou um pouco cansado, vou dormir.
Só quis te contar, afinal vocês se davam muito bem.